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A sociedade do cansaço

Quando dar o meu melhor não é suficiente -Por Cristian Situ Sánchez- Comecei a trabalhar nos meus últimos anos da universidade, a fazer estágios em jornalismo. O ritmo era intenso e constante: tarefas que se acumulavam, novas responsabilidades todos os dias e a sensação de que nunca era suficiente. Aprendi rapidamente que dar o meu melhor não garantia reconhecimento nem alívio; havia sempre mais alguma coisa para fazer

A sociedade do cansaço
3 de fev. de 2026·8 min de leitura

Quando dar o meu melhor não é suficiente

-Por Cristian Situ Sánchez-

Comecei a trabalhar nos meus últimos anos da faculdade, a fazer estágios em jornalismo. O ritmo era intenso e constante: tarefas que se acumulavam, novas responsabilidades todos os dias e a sensação de que nunca era suficiente. Aprendi rapidamente que dar o meu melhor não garantia reconhecimento nem alívio; havia sempre mais algo para fazer, sempre um padrão inatingível a perseguir.

Depois vieram as startups. Esse ritmo intenso tornou-se desmedido: dias longos, projetos que se multiplicavam sem qualquer priorização e a expectativa implícita de estar disponível quase o tempo todo. Se te desligasses, mesmo que fosse só por um momento, sentias o julgamento silencioso dos teus colegas. Mais tarde, na fase corporativa, o ambiente mudou na forma, mas não na essência. Frases como «é preciso dar 110 por cento» ou «dar o máximo» pairavam no ar e, mesmo cumprindo, nunca era suficiente. A liberdade prometida de escolha transformava-se numa obrigação de maximizar, e o esgotamento, inevitável.

Estas experiências levaram-me a refletir sobre o que o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han descreve no seu ensaio A sociedade do cansaço (2024)*. Han defende que vivemos numa sociedade caracterizada por um excesso de positividade, pelo desaparecimento da negatividade e pela pressão constante para ter desempenho. A nossa obsessão por produzir e alcançar objetivos levou-nos a um «infarto» interno, mais do que a uma infeção externa: um bloqueio que gera depressão, esgotamento e outras doenças neurológicas.

Da ameaça externa ao esgotamento interno

Em épocas anteriores, o que mais ameaçava a sociedade era o «outro»: o estrangeiro, o diferente, o estranho. A disciplina e a proibição serviam para proteger a comunidade, e a negatividade — o «não faças isto» — estruturava a vida social. Hoje, defende Han, a ameaça não vem de fora, mas de dentro. A alteridade desapareceu e a diferença substituiu o estranho: o outro já não nos inquieta, agora é um turista, um consumidor ou um colega. A tensão gerada pela diferença diluiu-se e, com ela, a oportunidade de confrontar e refletir sobre aquilo que nos desafia.

Esta mudança marca a transição da sociedade disciplinar, estudada por Foucault, para a sociedade do sucesso. Antes, éramos governados a partir do exterior, com proibições e normas claras; agora governamo-nos a nós próprios, autoexplorando-nos sob a ilusão da liberdade. Cada «eu consigo» é uma forma de autoimposição, e a pressão para maximizar torna-se a norma, e não a exceção.

A sociedade disciplinar baseava-se em limites claros: prisões, hospitais, escolas e fábricas determinavam o que era permitido e o que não era. As proibições moldavam o comportamento e distribuíam papéis. A sociedade da realização, por outro lado, convida-nos a produzir sem limites. A norma já não diz «não faças isto», mas sim «sim, podes fazer tudo»: trabalhar horas extraordinárias, empreender projetos paralelos, frequentar cursos, criar conteúdos, participar nas redes sociais. O resultado é uma liberdade que aprisiona, um imperativo de produtividade disfarçado de autonomia.

A liberdade que esgota

Numa sociedade centrada no sucesso, cada indivíduo torna-se um empreendedor de si próprio. A autoexploração não é um acidente: está no cerne do sistema. Podemos fazer horas extraordinárias, empreender projetos paralelos, produzir conteúdos e corresponder a expectativas pessoais e externas, tudo sob a premissa de que somos livres para o fazer. No entanto, quanto mais livres pensamos que somos, mais nos limitamos, presos naquilo a que Han chama de «restrição livre do desempenho»: a pressão para maximizar disfarça-se de liberdade e acaba por nos sufocar ainda mais.

A isto juntam-se fatores externos que intensificam o desgaste: chefes tóxicos e exploradores, colegas com más intenções que apenas procuram o seu próprio benefício, ou pessoas que nos prejudicam sem motivo aparente, sob o clássico lema de «não é pessoal, são negócios». E sim, em parte é verdade: muitas vezes estas dinâmicas resultam de um sistema insustentável, onde comportar-se desta forma parece ser a única maneira de avançar. A pressão não provém apenas de nós próprios; é também reforçada por estruturas sociais e laborais que perpetuam a autoexploração.

A minha experiência confirma isto. Nos estágios, nas startups e nas grandes empresas, a exigência constante não vinha apenas de mim; também sentia o peso de um ambiente que valoriza a competitividade extrema e a disponibilidade absoluta. A ilusão de autonomia escondia a realidade: quanto mais eu conseguia fazer, mais tinha de fazer, e quanto mais tentava respeitar os meus limites, mais atrito gerava. A autoexploração tornou-se a norma e o esgotamento, um companheiro silencioso.

Hiperatenção e multitarefa: a superfície que substitui a profundidade

Byung-Chul Han analisa como a sociedade do sucesso afeta a nossa economia da atenção. A superabundância de estímulos gera hiperatenção, um estado em que percebemos muita coisa, mas de forma superficial. Multitarefas, «doom scrolling», notificações, e-mails, mensagens: reagimos a tudo sem nos aprofundarmos em nada.

Paradoxalmente, esta hiperatividade gera passividade. A ação dispersa, reativa e incessante impede-nos de decidir, refletir e agir de forma autêntica. Cada pessoa carrega consigo um «campo de trabalho» interno que mantém uma vigilância constante, esgotando a capacidade de atenção profunda e de contemplação, competências essenciais para a criatividade, a reflexão e a experiência humana plena.

Também é importante a comparação que faz entre este estado e a vigilância de um animal selvagem: atentos a tudo o que é imediato, incapazes de nos concentrarmos no essencial, presos à urgência e à fragmentação. A multitarefa, longe de representar progresso, é um retrocesso: impede-nos de mergulhar na contemplação que nos permitiria maravilhar-nos e compreender o que nos rodeia.

Duas formas de cansaço

Aqui é importante distinguir o que Han define como «cansaço solitário» e «cansaço eloquente» ou «reconciliador»:

O cansaço solitário é divisivo, isolante, fragmenta a perceção e destrói a comunidade. É o esgotamento causado pela autoexploração e pela obsessão pelo desempenho. Desliga-nos de nós próprios e dos outros. Por outro lado, o cansaço elocuente surge da atividade significativa ou coletiva e permite recuperar energia, refletir e estabelecer ligações. Este tipo de cansaço profundo é criativo e reparador; promove a coesão social e a humanidade.

Nos últimos anos, aprendi a valorizar o cansaço reconfortante: passear pela cidade, passar tempo com a minha família, dedicar-me a projetos pessoais sem pressão externa nem interna. São momentos em que o cansaço deixa de ser destrutivo e se transforma numa fonte de sentido e renovação.

O esgotamento como sintoma social

Doenças como a depressão ou o esgotamento não são problemas individuais isolados nem exclusivamente biomédicos. São sintomas sociais, resultado da exigência de maximizar, produzir e ter um desempenho constante. A sociedade empurra-nos para sermos sujeitos de rendimento: autoexploramo-nos, acreditamos que somos livres, mas, na realidade, estamos presos num ciclo infinito de produtividade.

Este fenómeno tem consequências profundas: afeta a criatividade, enfraquece a comunidade, destrói a perceção profunda e fragmenta a experiência quotidiana. A fadiga não é apenas física: é mental, emocional e social. E, muitas vezes, ignoramo-la porque a cultura contemporânea valoriza a eficiência e a capacidade de fazer muito, mesmo quando o fazemos mal ou de forma superficial.

Rumo a um estilo de vida sustentável

A sociedade do cansaço não é apenas um diagnóstico: é um desafio. Convida-nos a questionar a forma como medimos o sucesso, como trabalhamos, que expectativas nos impomos e como nos relacionamos com o nosso tempo. Num mundo que celebra a produtividade infinita, parar não é fraqueza: é resistência.

A minha transição pessoal ensinou-me que a fadiga não é apenas individual, mas sim estrutural. A sociedade pressiona-nos a ser mais, a dar mais e a produzir mais. Só compreendendo esta fadiga é que podemos imaginar outra forma de viver: mais consciente, equilibrada e humana. Aprender a ouvir, a descansar e a estabelecer limites não é um luxo; é um ato de autocuidado e uma forma de recuperar aquilo que o excesso de positividade nos roubou.

Num mundo em que tudo tem de ser possível e nada é suficiente, parar permite recuperar o sentido, a ligação e a liberdade. Só assim podemos aspirar a viver sem sermos consumidos pela sociedade do rendimento e construir uma vida que valha a pena viver.


*Esta é a 4.ª edição do ensaio.

Foto de capa cedida por Mike Chai

Cristian Situ

Espanha

Cristian Situ

Sobre Cristian

Codiretor executivo e fundador da Sur Global, organização sem fins lucrativos que promove a inovação consciente na América Latina. Mestre em Digital Management pela Hyper Island. Com mais de 10 anos de experiência em inovação, design digital e gestão de projetos, trabalhou em empresas, consultorias e formação. Foi Education & Product Manager na Crehana e Head of Product na Colectivo23, liderando projetos educativos de impacto. Colaborou como consultor com a UNICEF, a Volvo, o Ministério da Educação do Peru e a Más Igualdad Perú, entre outros, sempre focado no design, na tecnologia e no trabalho colaborativo para transformar realidades. É ainda diretor de Comunicação e Publicação da revista UNTOLD.ink.

Tags:autocuidadosaúde

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