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Cartografias do Desvio
O que implica imaginar a partir das margens? «Cartografias do Desvio» é um formato de entrevistas breves, mas significativas, que procuram equilibrar a profundidade crítica com a humanidade, a partir de um olhar situado no Sul e para o Sul. Nesta conversa com Pablo Ruiz-Múzquiz, exploramos o que significa conceber ferramentas que libertam em vez de restringirem: tecnologia aberta que oferece autonomia face à

O que implica imaginar a partir das margens? Cartografias do Desvio é um formato de entrevistas breves, mas significativas, que procuram equilibrar a profundidade crítica com a humanidade, a partir de uma perspetiva situada no Sul e voltada para o Sul. Nesta conversa com Pablo Ruiz-Múzquiz, exploramos o que significa conceber ferramentas que libertam em vez de restringirem: tecnologia aberta que proporciona autonomia face aos monopólios culturais e de poder.
A partir do seu lugar no Sul — simbólico e político —, Pablo convida-nos a desmontar certezas e a abrir espaço para futuros em que a tecnologia digital não tome atalhos que violem a nossa humanidade.
Que histórias, pessoas ou territórios marcaram a tua visão do futuro?
A minha avó materna, que era ainda uma menina quando a guerra civil eclodiu em Espanha, dizia-nos sempre a nós, os seus muitos netos e netas (eu era o mais velho), para nunca esquecermos o quanto éramos privilegiados.
Na variada obra de J.R.R. Tolkien, encontramos *O Senhor dos Anéis*, onde Gandalf diz a um Frodo frustrado e receoso: «Tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos foi dado», o que, se o combinarmos com o lema da minha avó, gera uma ação consciente e ativista orientada para agir no presente, a fim de criar futuros melhores.
Por fim, nascer e viver em Espanha, com todo o peso da sua história, leva-nos a refletir sobre como podemos criar um passado repleto de orgulho para os futuros habitantes destes territórios.

Como entendes o papel do design e da inovação nos países do Sul Global?
Mal tenho critério para responder com um mínimo de dignidade, mas a minha obsessão é que o papel do design no Sul Global seja encontrar, entre outras coisas, soluções próprias para problemas próprios. O desafio surge quando acrescentamos «mediadas pelas ferramentas e pelos monopólios culturais disponíveis». É aí que me pergunto quanta inovação é capaz de surgir, sem restrições.
Para mim, é fundamental que a inovação do Sul Global nos faça romper com os esquemas do Norte Global, afirmando claramente: «Assim não, é desta outra forma».
Há alguma questão que estejas sempre a tentar responder através do teu trabalho?
São imensas, mas, a nível mais pessoal, escolheria esta: Como posso antecipar as tendências futuras no que diz respeito ao desenvolvimento da tecnologia digital, de forma a que o meu trabalho hoje tenha uma influência decisiva e positiva?

Qual achas que é o maior mal-entendido da humanidade?
A aparente necessidade de transcender enquanto espécie. E o seu primo distante, a obsessão de construir identidades baseadas em passados remotos mitificados.
E a maior conspiração?
A oligarquia tecnofeudal.
Que conversas ainda faltam nas mesas onde se tomam as decisões?
Fundamentalmente, aquelas que dizem respeito a uma visão a mais longo prazo, em que os que se sentam nessas mesmas mesas compreendam que já não estarão presentes para reivindicar qualquer mérito.
De que forma é que o exercício da tua profissão pode perturbar as estruturas de poder atuais?
Proporcionar tecnologia facilitadora a todo o mundo e oferecer-lhe autonomia e soberania para que possa rejeitar as chantagens do poder.
Que riscos estás disposto a correr hoje no teu trabalho?
Não tomes atalhos quando estes vão contra os teus próprios valores.

Um livro que te fez mudar de opinião
Dois. A Bíblia e Assim Falou Zaratustra.
Uma ideia que estás a deixar para trás
A confiança de que conseguiremos resolver a crise climática.
Uma frase que te acompanha quando tudo treme
Exceto a morte, tudo tem solução.
Que pergunta é que não te fizemos e que terias gostado de responder?
«Uma ideia que te tem vindo à cabeça ultimamente» -> A importância de promover o diálogo intergeracional.
Se a UNTOLD.ink fosse uma constelação de pessoas e conhecimentos, que papel gostarias de desempenhar?
Um poeta que estivesse atento às conversas e que, depois, resumisse os acordos em versos que extraíssem o melhor da linguagem para os honrar e celebrar.
Imagens cedidas por Pablo Ruiz-Múzquiz.
Pablo Ruiz-Múzquiz
Espanha
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